Sentado, calado e acorrentado à rústica cadeira que sombreava o piso de tacos de uma madeira corroída pelo tempo, acendeu as memórias, de forma que o perfume de mofo desse lugar ao do tempo a se lembrar, era tarde, quase noite, e os sussurros do vento atingiam-no nas maçãs do rosto, estava esperando aquele que incendiava o dia dar lugar à fria e tão mais quente noite.
Já se passavam algumas voltas no relógio e tempo pouco em seus pensamentos, quando sua silhueta o atingiu, enevoada pelo véu da noite, enaltecida pelos últimos suspiros de glória do sol, tingindo de doce os olhos, foi em direção a ele e a seus sonhos.
Sentou-se longe o suficiente para não querer nada e perto o suficiente pra envenenar com todas as vontades os sentidos.
Aproximou-se um tanto e meio, e agora os lábios tomavam forma e para que tais formas? Foi súbito e incontrolável o desejo tocar-lo, acalmado apenas pelos erros do passado.
Ele levantou-se, sorriu de forma desajeitada e partiu, não podia dizer nada sem que as lagrimas tomassem forma em seu rosto ou que gaguejasse verdades que não gostaria que tivessem existido.
Partiu de forma triste, não observando a beleza dos traços da noite, o perfume das flores, a musica que cantava o vento para as árvores, nem as tragadas em vão, sabia apenas que seu coração doía, dos dois lados, de todas as formas e sabendo que não tinha o que fazer derramou-se em soluços calados.
Partiu pra sempre, pelo menos daquele mundo, daquele amor, daquele tempo que insistia em não passar.
Mas antes tinha que se livrar das memórias, poder lembrar sem ferir aquele que bate por nós é de fato superar, mas o podia e sabia bem disso, então agiria de forma criminosa o capitulo da sua vida que pretendia não voltar a ler.
Juntou todas em quanto caminhava em direção à casa antiga que o abrigou por muito tempo, reviveu-as na fração de segundos mais dolorosa e gritou para elas em tom imperativo que fossem e assim não voltassem nunca mais.
Girou sem ânimo a maçaneta que dava para a sala, puxou aquela cadeira velha que carregava as traças do quadro acima, sentou-se sem vontade de viver e mesmo que não querendo o perfume de mofo deu lugar a aquela tarde quase noite, lembrou-se de que esperava a noite ou pelo menos fingia que esperava.
