terça-feira, 30 de novembro de 2010

(des)encanto

Sentado, calado e acorrentado à rústica cadeira que sombreava o piso de tacos de uma madeira corroída pelo tempo, acendeu as memórias, de forma que o perfume de mofo desse lugar ao do tempo a se lembrar, era tarde, quase noite, e os sussurros do vento atingiam-no nas maçãs do rosto, estava esperando aquele que incendiava o dia dar lugar à fria e tão mais quente noite.
Já se passavam algumas voltas no relógio e tempo pouco em seus pensamentos, quando sua silhueta o atingiu, enevoada pelo véu da noite, enaltecida pelos últimos suspiros de glória do sol, tingindo de doce os olhos, foi em direção a ele e a seus sonhos.
Sentou-se longe o suficiente para não querer nada e perto o suficiente pra envenenar com todas as vontades os sentidos.
Aproximou-se um tanto e meio, e agora os lábios tomavam forma e para que tais formas? Foi súbito e incontrolável o desejo tocar-lo, acalmado apenas pelos erros do passado.
Ele levantou-se, sorriu de forma desajeitada e partiu, não podia dizer nada sem que as lagrimas tomassem forma em seu rosto ou que gaguejasse verdades que não gostaria que tivessem existido.
Partiu de forma triste, não observando a beleza dos traços da noite, o perfume das flores, a musica que cantava o vento para as árvores, nem as tragadas em vão, sabia apenas que seu coração doía, dos dois lados, de todas as formas e sabendo que não tinha o que fazer derramou-se em soluços calados.
Partiu pra sempre, pelo menos daquele mundo, daquele amor, daquele tempo que insistia em não passar.
Mas antes tinha que se livrar das memórias, poder lembrar sem ferir aquele que bate por nós é de fato superar, mas o podia e sabia bem disso, então agiria de forma criminosa o capitulo da sua vida que pretendia não voltar a ler.
Juntou todas em quanto caminhava em direção à casa antiga que o abrigou por muito tempo, reviveu-as na fração de segundos mais dolorosa e gritou para elas em tom imperativo que fossem e assim não voltassem nunca mais.
Girou sem ânimo a maçaneta que dava para a sala, puxou aquela cadeira velha que carregava as traças do quadro acima, sentou-se sem vontade de viver e mesmo que não querendo o perfume de mofo deu lugar a aquela tarde quase noite, lembrou-se de que esperava a noite ou pelo menos fingia que esperava.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ULTRAVIOLENCE

Quando o pulsar se torna mais forte que os pensamentos.
Quando o instinto fala mais alto
mais até que a suas próprias leis
Quem é você quando teus medos te encontram?

Os olhos atentos, o corpo fervendo, a vontade estampada.
Dominado pela ira, enaltecido pelos motivos.
Rasgado pelo ódio.
Avance.
O estalar do ferro, o rasgar da pele, o jorrar de sangue.
Tornando real suas crenças, assim em fúria esmagando a tristeza.
Gritando mais alto expulsando do corpo,
a dor que sente.
Ah! se tudo isso pudesse parar.
Ah! se quebrando ossos a alma esquecesse,
Surdo à sua própria fala, razão nenhuma o acalma.
Inocente diria, se em consideração
que a dor que sente
que faz que machuque
de nada é culpado

Enfrente-se até o ultimo
Acorrente-se depois
assista ao estrago
que fez
e que fizeram em ti.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Remorso

Deveria eu,
ter dito mais o que sentia
me entregado, um pouco mais do que queria
acompanhado, todos teus passos nas noite frias.
quem sabe então, um pouco mais, seria minha
o fato é,
que não podia.
e vem o tempo

em passos fortes
esquecendo tudo
que houve um dia.



Remorso: Quem sente remorso não está arrependido verdadeiramente do mal que causou a terceiros, está apenas (por vezes inconscientemente e instintivamente, outras vezes conscientemente), motivado pelo medopunição, tentando aparentar arrependimento verdadeiro (em alguns casos até acreditando no próprio falso arrependimento), castigando a si mesmo de alguma maneira, por acreditar que um castigo auto-imposto (como forçar-se a se entristecer por exemplo, que é a manifestação mais comum do remorso) a redimiria de seu erro

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Alis Grave Nil

 "Nada é pesado quando se tem asas."

 e mesmo que pudesse descrever minuciosamente, cada segundo daquele momento, não o faria, seria de certo além de tudo inútil.
 - Tragédia
gentilmente invadiu meus sonhos, delicadamente ofereceu-me o veneno de seus lábios,  e em calma cruel pintou um destino incerto
tudo agora era em razão dos olhos de quem um dia seria, nem que por uma noite, minha.
a cor das manhãs, o perfume da vida, o ritmo do coração que recusa a disparar ante outra qualquer presença
e os ventos da má sorte pareciam moldar o caminho
- Inferno
mas a brutalidade daquele coração fez-se recusar esquecer o quão longa é a estrada
fez-se delicado com os sussurros da esperança e duro ante os gritos da derrota
-Gênesis
chega agora um pouco mais perto, onde ja é possível esboçar um sorriso, onde a estrada toma cor, onde a luta faz sentido
-Vermelho cor do céu
espera agora com calma
todos os passos ja foram dados
faltam os seus.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Exordio

Naquele momento, ele sentiu finalmente o amargo da consciência que há muito lhe deixara, quando no desespero de sua alma, fez de suas agonias, seu grande amor.
Nenhuma brisa tocara mais seu rosto desde então, nem o calor de um corpo, nem mais um gole qualquer na calada da noite.
O amanhecer talvez fosse seu único companheiro, ele ainda aparecia, para todos, mesmo que para todos, pois talvez fosse o único que fazia sentir seu coração.
Afinal, ele esperava a volta, daquilo que nele fora vivo, que o embriagara de sentimentos.
Era agora tudo, e nada, cegou-se para não ver a sua dor, sujou suas mãos e sua alma, o que de fato fora decisivo para a deixa de sua consciência.
Ele se senta agora, esperando a brisa lhe tocar, esperando seu coração voltar a pulsar por vontade própria.
E com os olhos firmes, alertas, até que alguém chegue, ele vai esperar, defronte sua janela.
Ócio...


Exórdio: 
do Lat. Exordiu
s. m., primeira parte de um discurso;
preâmbulo, introdução a um discurso;
fig., princípio, prefácio.

terça-feira, 25 de maio de 2010

encanto.

e nos sonhos profundos
delirava encantado
com o doce dos lábios

mas o inverno te espera
assim do teu lado
tão mais acordado

e no inverno, tão doce
não menos em sonho
nos lábios de mel
delira acordado

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cata-ventos

Era um sorriso inocente, até um pouco alegre que se mantinha no fragil rosto escondido.
-Pode me procurar agora mamãe, ja estou bem escondido.
Realmente estava. Atras do nevoeiro sujo, na ultima lata, estava escondido, com provável sede, fome e saudades.
De uma vida que nunca teve, esperava pacientemente.
- Mamãe, venha logo, não estou tão escondido assim.
Silêncio.
- Venha logo, estou com frio.
Suas lagrimas há muito ja haviam se esgotado, mas ainda chorava por dentro
- Mamãe, por que você não vem?
Por que ela não vinha? que mal havia ele feito.
Abandono.
Silêncio.
Choro.
E no calar mais frio e triste da noite, ela veio, tocou-lhe sutilmente os ombros, ofereceu-lhe um abraço e beijou-lhe as maçãs do rosto.
Seu véu negro não o incomodava, nem pra onde ela o levaria.
Levou-o, no calar mais frio, na viela mais escura, no sorriso mais sincero.
Conforto.


[Baseado em uma vida real]